terça-feira, 24 de novembro de 2009

AGOSTINHO NETO / RIO DO OURO




Planta da roça e legenda


LOCALIZAÇÃO E HISTÓRIA


A roça Rio do Ouro (Agostinho Neto) situa-se no norte da ilha, a 10 quilómetros da capital, no actual distrito de Lobata, perto da cidade de Guadalupe. Foi fundada, em 1865, pelo Dr. Gabriel de Bustamante e foi explorada, a partir de 1877, por José Luís Constantino Dias o Marquês de Vale Flor( nasceu em Murça, em 19 de Março em 1855 e morreu em 20 de Julho em1932, em Bad-Nauheim na Alemanha. Em 1871 emigrou para S. Tomé, e trabalhou numa casa comercial de João Maria Constantino. Em 1874 mudou se para a agricultura. Em 1877 passou a explorar a roça Agostinho Neto e em 1882 comprou a roça Boa Vista. Tornou se o maior e mais opulento agricultor de S. Tomé e Príncipe e recebeu o viscondado por decreto de 3 de Maio de 1890, o condado e o marquesado por decreto de 7 de Novembro de 1907, todos de D. Carlos I.), através de uma sociedade a que se veio a chamar Sociedade Agrícola de Vale Flor(para além desta, houve outras sociedades e companhia como: a companhia do Príncipe, a Companhia agrária ultramarina, a sociedade agrícola terras de Monte Café, a companhia Agrícola de Porto Real e Bela Vista, companhia agrícola das Neves e Colónia açoriana, Lda., Sociedade das Roças Plateau e Milagrosa, Sociedade agrícola Ribeira Funda e a Sociedade de agricultura de S. Tomé e Príncipe),tendo tido António Fonseca, como administrador, durante vários anos.

José Luís Constantino Dias o Marquês de Vale Flor

António Joaquim da Fonseca antigo administrador da roça Rio do Ouro



IMPLANTAÇÃO


A roça está implantada num terreno algo declivoso, com uma pendente aproximada de 10 metros, tendo a cota mais alta no local onde se encontram o hospital, a maternidade, o centro de pesquisa e as capelas (da Nossa Senhora do Carmo e a mortuária).Esta faz ligação a uma cota intermédia, que é marcada por um grande largo onde se encontra a Casa Grande, a Casa de passagem, as casas dos trabalhadores brancos e os escritórios, através de uma enorme rampa que é flanqueada dos dois lados por senzalas, implantadas, à medida que se vai descendo, em pequenos pátios em socalcos Existe ainda uma cota mais baixa, destinada aos armazéns, as garagens, o moedor de café, a central eléctrica e serralharia e outros serviços.

Vista aérea da roça-foto A.Maio

Voltando à cota mais alta, ganha destaque o hospital com a sua implantação em forma de “U”, marcado por um corpo central de dois pisos, que serve de hall de entrada e enfermaria no rés-do-chão e de enfermaria dos trabalhadores brancos no piso superior. Este corpo serve de charneira entre as duas alas (de um piso, mas com um pé–direito considerável), a masculina e a feminina, que são complementadas com os dois braços que compõem o “U”, onde se instalavam os refeitórios e os balneários.

O Hospital

Aspecto do Hospital no tempo colonial

O eixo estrutural da roça, o terreiro avenida

As Senzalas

Antiga Casa do Medico e o Centro de convívio

Nas traseiras do hospital, para além do espaço exterior dos doentes, constata-se a presença de dois corpos, que constituíam a maternidade e o centro de pesquisa de doenças infecto-contagiosas, cuja disposição configurava um enorme pátio (terreiro sanitário).

Em primeiro plano o centro de pesquisa de doenças infecto-contagiosas e em segundo a maternidade

A preocupação sanitária estava bem patente na configuração dos demais edifícios onde se previsse aglomeração de pessoas, como no hospital, na maternidade, nas senzalas e nos armazéns, com a adopção de lanternins ao longo da cobertura, o que facilitava a circulação de ar e a entrada de luz para o interior dos edifícios.Outro factor que se poderia inserir nessas configurações, com excepção das senzalas, seria o número e o tamanho dos vãos nas fachadas dos edifícios.
Perto do hospital, localizam-se de igual modo as capelas, a mortuária, de que actualmente só resta o piso, e a da Nossa Senhora do Carmo, que foi construída pelo administrador Fonseca, o qual a baptizou com o nome da sua mãe.

Capela da Nossa Senhora do Carmo
Capela mortuária inexistente-foto retirada em 2007

Na cota intermédia, a localização da casa grande e da casa de passagem cria certa confusão (a que designo de “paradigma da casa grande”), por tudo indicar que a casa de passagem ser a casa grande, devido à sua destacável localização no eixo da roça, em franco diálogo com o hospital, por ser servida por um grande terreiro avenida, adoptar a forma em “U”, própria das casas barrocas portuguesas. Dispunha, para além disso, nas traseiras, de um grande jardim botânico com gaiolas, onde se situavam o salão de festas e um rico museu, cuja maior parte do espólio foi transferida para o museu nacional.

Fachada da Antiga casa grande,actual casa de passagem

No interior da casa de passagem-a Sala

Traseiras da casa de passagem a partir do jardim botânico

O jardim botânico

A fonte do jardim botânico perto do salão de baile

Por outro lado, a dita casa grande implanta-se fora do eixo organizador da roça, em forma de “L”, ao lado da casa de passagem e defronte aos antigos secadores ao ar livre, actualmente transformados em pequenas hortas dos descendentes dos antigos serviçais da roça.
É um edifício de dois pisos, com varandas nos pontos essenciais da casa, sendo o rés- do-chão marcado por um hall com uma majestosa escadaria, de guardas metálicas, e flanqueada com dois pilares em mármore que se diferenciam em relação a outros materiais presentes, como a madeira do lambrim e do tecto. Havia ainda no rés- do-chão, a copa, os escritórios, a cozinha e uma sala enorme, que se considera ser a do jantar. No piso superior existem as salas, os quartos e a casa de banho.

A casa grande/administração

A casa grande/administração

No hall da casa grande/administração

No hall de entrada da casa grande/administração

A sala do piso superior da casa

Traseiras da casa grande/administração ao fundo a cozinha

O que se torna nesse caso patente é que a casa de passagem não tem o programa de uma casa grande, com uma zona de recepção semiaberta, uma enorme sala de jantar, de um lado, e, do outro, vários compartimentos, o que demonstra fidelidade em termos estruturais da roça, mas que difere da actual casa grande, que tem o aspecto de uma casa grande mas com localização errada.
A justificação para este caso tem muito a ver com as mutações organizacionais da roça, a degradação dos edifícios e a mudança do programa dos edifícios. Isso somente foi explicado através dos primeiros registos iconográficos da roça , em que existia apenas um edifício no lugar onde está agora a casa de passagem, o que sugere que a antiga casa grande ficava mesmo no eixo da roça e que, devido à sua degradação, foi construída uma outra, para servir de casa grande.
Tudo deixa a entender que, depois da construção da nova casa, foi-lhe mudado o programa passando a casa de passagem, e onde já pernoitaram ilustres figuras, como Francisco Tenreiro, o Presidente português António Óscar de Fragoso Carmona e o Ministro das colónias Francisco José Vieira Machado durante a visita às ilhas no dia 25 de Julho em 1938.

Escritórios

Casa dos trabalhadores brancos

Nas cotas mais baixas organizam-se todos os equipamentos de produção da roça, como os armazéns, os secadores, as estufas, as oficinas, a bomba de combustível, as pequenas fábricas, os hangares das locomotivas e as garagens. É também nestas cotas que se situa a entrada secundária da roça, a de serviço, já que a principal se situa na cota intermédia, entre a casa grande e a de passagem, mais precisamente perto do jardim botânico.

Garagens e oficinas

Antiga bomba de Combustível

Antigo Secador

Interior da estufa de recepção do cacau

Entrada Principal da roça-a entrada do dono da roça

Em termos logísticos, a roça possuía uma das maiores linhas férreas da então província, que se estendiam às dependências, onde se ia buscar o cacau e café para serem tratados na sede. Dada a sua localização no interior da ilha, era-lhe impossível dispor de um porto, o que levou com que fosse implantado um porto a 8 quilómetros, numas das suas dependências, a de Fernão Dias.

Roça Fernão Dias-foto A.Maio

3 comentários:

  1. Parabéns, estudo Dr. GAbriel, quando ainda no Brasil, como mandante do crime de Manoel da Silva Pereira Junior.

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  2. Bom dia. Poderá dizer-me se conhece o nome de José Hermant? Sei que o meu tio-bisavô, Ernesto Passos Bandeira, esteve a trabalhar na Roça Rio do Ouro nos anos 1918 e 1919 (pelo menos) e tenho documentos referentes a José Hermant (contas, dados do seu falecimento em finais de 1918 (sepultado a 25 de Novembro de 1918 no cemitério de S. João, S. Tomé).Tenho fotografias da época do meu tio-bisavô e do seu irmão. Julgo que trabalhavam na Farmácia da roça. É possivel aceder a mais dados sobre ambos? Obrigado.

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  3. Custa-me a ver o estado de degradação desta roça mas confesso que não tenho saudades nenhumas do tempo em que ali trabalhei, de sol a sol - Uma abordagem textual e fotográfica, muito interessante, sob o ponto de vista histórico e arquitetónico do que foi e do estado em que se encontra, mas a mim esta roça traz-me más memórias, algumas das quais registadas fotograficamente - Fui empregado de mato, quase dois anos, com o meus 19 anos, .de 1964 até ir para a tropa, voltei ali 39 anos depois, em Outubro de 2014, e também nos finais de junho de 2015, de facto, senti pena que as suas instalações tivessem tão degradadas, desde as senzalas aos chalés, secadores, armazéns, oficinas, hospital, à casa do Patrão, onde residia o velho Fonseca administrador, que, de quinze em quinze dias, se regalava com uma mulatinha, ainda menor – Sim, não me esqueço no dia e que ali cheguei, pensando ir encontrar o mínimo de condições para fazer o estágio de um curso tirado na Escola Agrícola de Santo Tirso, que não tinha encontrado noutras propriedades da Companhia Agrícola Ultramarina, mas nova desilusão: quando me apresentei junto deste senhor, junto do Chefe de Escritórios, a únicas palavras que lhe ouvi foram estas: entregue-lhe um machim para mão, que nós aqui não precisamos de técnicos mas de empregado de mato. E lá tinha eu que andar de sol a sol, à chuva ou sem chuva, a subir e a descer grotas para levar para tropa umas migalhas.

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