quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A PRIMEIRA FASE DE DESENVOLVIMENTO URBANO- A ESTRUTURA URBANA INICIAL.

A Povoação estabelecida, por Álvaro de Caminha na baía de Ana Chaves, já dispunha, em 1506-1510, de 250 fogos de modesta construção, casas feitas em madeira, de um só piso, ou de dois sobrados e cobertas também de madeira. Segundo o testemunho do piloto anónimo, que viajou para a ilha uns anos mais tarde (cerca de 1560-1570), a cidade de São Tomé, em meados do século XVI, era um desenvolvido aglomerado populacional com cerca de seiscentos a setecentos fogos e servido por um importante porto.

Vista da cidade

As primeiras construções existentes no início do século XVI foram a Torre, as igrejas de Santa Maria e de S. Francisco (mosteiro sem frades), a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Graça, a Igreja da Conceição e a Igreja e Hospital da Misericórdia. Estes edifícios e os espaços urbanos confinantes, o porto, as casas dos primeiros habitantes e os armazéns para guardar o açúcar, constituíam os elementos urbanos fundamentais da origem da cidade de São Tomé.
A Torre, por exemplo, foi construída por Álvaro de Caminha por volta de 1494, já que o mesmo recebera o foral e a alcadaria-mor da fortaleza em 19 de Dezembro 1493, quando a povoação ainda se encontrava em Água Ambó/Ana Ambó .
Esta fortaleza, que se constituía como peça fundamental na defesa contra os assaltos dos inimigos vindos do exterior, era simultâneamente a residência do capitão. Foi provavelmente um dos primeiros edifícios a serem construídos, situando-se junto à ribeira, na parte poente do núcleo central da actual cidade de São Tomé (no local onde hoje se situa o palácio presidencial), juntamente com algumas casas que lhe estavam próximas e onde moravam alguns dos primeiros habitantes da ilha, constituindo o primeiro conjunto edificado da então Povoação.

Vista da cidade a partir da praia

Junto à Torre, mas mais difíceis de localizar, encontram-se nesta altura a Igreja de Santa Maria ou N.ª S.ª da Avé-Maria e o Mosteiro de São Francisco, que foram iniciados por Álvaro de Caminha por volta de 1492/1493, por ordem de D. João II, o qual “ mandou pedra e cal e tijolo e telha para fazerem lá igrejas”. Aquando da sua morte, em 1499, estes edifícios ainda não haviam sido concluídos, tal como o descreve Álvaro de Caminha no testamento ao seu primo, a quem entrega a capitania: “Mando ao dito Pêro Alvarez… E, assim, lhe rogo e encomendo que em maneira nenhuma, não parta da ilha, até que todas estas sejam cumpridas e acabadas, por mais descanso da minha alma. E, assim, com os oficiais que houver, me acabarão o corpo do Mosteiro, fazendo-lhe suas portas, o melhor que ser possa, e com cal que ai houver pedra lenha e fornos, se a feita não bastar, se cubra todo o corpo do dito Mosteiro e seja de dentro e fora acafelado, e apinzelado (rebocado e caiado) como cumpre e eu desejava…E, de pois de isto feito mande fazer um altar de degraus: que o andaime, onde o sacerdote põe os pés quando diz a missa, tome de parede a parede, e seja tão alto, que, debaixo dele fique uma capelinha com outro altar; e no maior sejãm postas suas cortinas e toalhas e o retábulo com toalhas, imagens que estão no meu oratório e concertado o melhor que se puder fazer” .
Facto que Pêro Alvarez, o seu primo em carta ao Rei, após a morte de Caminha em 28 de Abril de 1499, refere que Álvaro de Caminha “foy enterrado com a maior solenydade que se pode fazer na igreja de nossa Senhora” e acrescenta” que me parece senhor que pera acabar todo o que no testamento he declarado a saber igreja de nossa senhora e moesteiro cobrir todollos outros…há mester muy-to pouquo menos de trres annos” .
Com a nomeação real de Fernão de Melo em detrimento de Pêro Alvarez, primo de Álvaro de Caminha, que se supunha ser seu continuador nos destinos da capitania de São Tomé, supõe-se que as obras do Mosteiro não foram concluídas. Na opinião do Padre António Brásio, o mosteiro foi concluído e destinava-se " à educação dos moços e moças de S. Tomé " e a sua fama teria levado o rei do Congo, em carta dirigida ao rei de Portugal, a solicitar-lhe autorização para fundar em S. Tomé um Colégio-Internato de educação para os jovens daquele país e isso porque a dita ilha
é tão perto do nosso Reino, manda remos lá moços e moças aprender, porque cá fogem todos, e um dia vêm duzentos e outro dia vêm cento: assim que lá, em pouco tempo, aprendiam " .
Quanto à sua localização, depreende-se que a referida Igreja e o Mosteiro se localizavam também próximo da Torre, sendo que a primeira (Igreja de Santa Maria ou N.ª S.ª da Ave-Maria), a descrição que dela faz o já citado Padre António Brásio (“a outra de Santa Maria, que está a dois tiros de besta da dita torre”) leva-nos a crer que a sua localização correcta seria por detrás da actual Igreja da Sé (a Igreja Matriz de Nª Sª da Graça) de São Tomé.
Localização esta que foi confirmada em 1950 quando se procedia aos desenterros para rasgar a actual Avenida da independência, por detrás da Sé, foram encontradas muitas ossadas e o precioso espadachim de Álvaro de Caminha que com ele fora sepultado .
As ruínas de um muro definiam nitidamente os limites do recinto, que formava um quadrilátero de dez por quinze metros aproximadamente. As lajes sepulcrais ostentavam inscrições perfeitamente legíveis, das quais constavam os nomes dos defuntos e a data do falecimento. As datas eram de fins do século quinze e princípio do dezasseis.
As ruínas do muro circundante e duas gárgulas com as medidas perfeitas da área do recinto pareciam ser indícios mais que suficientes para denunciarem a existência primitiva de uma capela, dedicada à Nossa Senhora da Graça, que cairia depois no esquecimento, quando da construção, a pouco mais trinta metros, da grandiosa catedral que tem por titulo Nossa Senhora da Graça.

Fachada e planta da Igreja da Nossa Senhora da Graça


Com efeito, o tal achado estava situado no cruzamento de duas linhas imaginárias, sendo uma de quarenta metros, que teria origem na esquina da sacristia da Sé, e a outra de uns trinta metros, que teria inicio no muro do jardim do Palácio do Governo.
A Igreja da Sé (a Igreja Matriz de Nª Sª da Graça) foi construída junto aos alicerces da antiga igreja de Santa Maria, por ordem de D. Sebastião, e a data da sua construção, muito embora a Diocese tenha nascido nas ilhas a 3 de Novembro 1534 (o ano anterior à elevação da Povoação ao estatuto de Cidade), foi “ no anno de 1576…”, data em que “se abrio alicerce de nova Igreja da Sé Catedral e se continuou a trabalhar nella athe o anno de 1578” . Construção que não foi concluída e que, em 1584, levou o Rei D. Filipe a aplicar uma renda anual de 200 reis para finalizar as obras. Tais rendas deixaram contudo de ser pagas, facto que conduziu a que o frontispício da igreja fosse construído de madeira, provocando a sua queda assim como a do tecto em 1814. Em 12 de Março de 1863, com fundos obtidos por subscrição pública, iniciaram as obras de reparação na igreja da Sé, mas, em 1866, esta já se encontrava de novo em ruínas, circunstância que obrigou o ministro das Colónias a ordenar, num ofício ao governador, que visse o estado da Sé e se lhe parecesse mais conveniente, fizesse reparações na igreja da Misericórdia para passar a servir de Sé.
Nos anos seguintes esteve muitas vezes fechada ou utilizada como depósito de materiais das obras públicas.
A Igreja da Misericórdia, de três naves e três altares, que, tudo leva a crer, teria servido de Sé durante a recuperação da Igreja da Sé (a Igreja Matriz de Nª Sª da Graça) situava-se mais para norte e, por conseguinte, mais perto da praia e do hospital da Misericórdia. Este hospital, que foi criado pela Carta Régia de D. Manuel I, de 3 de Maio de 1504, foi demolido em 1913 e aproveitou-se as suas pedras para a construção do edifício que outrora alojou os serviços de correios e telefones, e onde estão actualmente instalados o Tribunal e o Registo Civil, perto igualmente do Palácio Presidencial.

Igreja da Misericórdia

Serviços de correios e telefones
Tribunal e o Registo Civil

Paralela ao mar e separando o quarteirão da Misericórdia e dos edifícios confinantes com a torre, nasce uma pequena rua que, acompanhando o terreno, se desenvolve junto à costa.
Esta liga o núcleo da Sé e da Misericórdia ao porto (actual Praça da independência) e constituiu o que posteriormente se designou de "Rua Direita ou Rua Grande ".

A Rua Direita ou Rua Grande

A rua mais comercial da cidade

Esta rua que, no início do século XVII, liga a fortaleza de S. Sebastião à igreja de São João (apesar de alguns desvios, devido à foz de alguns rios que desaguam na baía) estende-se ao longo da costa ligando, no século XVI, os dois extremos da cidade: o núcleo da Sé, da Torre e da Misericórdia ao porto e foi o elemento estruturante de todo o aglomerado.
Embora não haja nenhuma referência concreta quanto à localização dos armazéns para guardar o açúcar, é de supor que estes se localizassem junto à costa e perto do porto, no local onde posteriormente (século XIX), se viriam a instalar os armazéns para guardar o cacau e o café.

Os armazéns de cacau e o café

Na primeira fase de desenvolvimento urbano da cidade de São Tomé as primeiras construções concentram-se num pequeno núcleo à volta da Torre, do Mosteiro de S. Francisco, da Igreja de Nª Sª de Avé-Maria (posteriormente, Nª. S.ª da Graça) e da Misericórdia, onde dois elementos urbanos fundamentais (o núcleo da Sé e o porto) e a rua Direita estão na origem da futura estrutura urbana da cidade.


Esquema representativo da primeira fase da evolução urbana cidade de São Tomé