segunda-feira, 16 de novembro de 2009

TERCEIRA FASE DE DESENVOLVIMENTO URBANO - A EXPANSÃO DA CIDADE

Esta fase, que corresponde ao final do século XVI e início do XVII é posterior ao período marcado pela instabilidade com os ataques dos corsários e as crises internas que resultaram na destruição de muitos edifícios, como igrejas, engenhos e alguns edifícios de maior relevo na cidade.
Em consequência, houve uma estagnação na economia, associada ao abandono de muitos engenhos por parte dos proprietários, que rumavam para o Brasil, e ao abrandamento no tráfico de escravos na ilha.


Vista da cidade a partir da torre da Sé

Esta fase é marcada pela restauração de alguns edifícios incendiados, pilhados e destruídos e pelo surgimento de outros para servir as populações.
O desenvolvimento urbano é então marcado por duas tendências, a saber: a primeira é fruto das tipologias urbanas usadas no continente no século XV e XVI (período renascentista) e origina uma expansão da cidade em que o traçado urbano é igualmente regular, como na fase anterior, mas agora com um sentido diferente e inovador. Este alargamento da cidade estende-se para a zona do seu actual centro.
A segunda tendência corresponde ao desenvolvimento da cidade mais para o interior na sequência da implantação das igrejas e edifícios significativos em pontos afastados do núcleo urbano central.
Neste sentido, tal implantação permitiu a criação de vias que estiveram na base do desenvolvimento posterior.
Relativamente à primeira tendência, constata-se a criação de uma nova área da cidade, com uma malha regular na actual baixa de S. Tomé, à semelhança das intervenções urbanísticas dos séculos XV e XVI, nomeadamente, no que respeita às reformas e expansões de cidades portuguesas do continente. Tal corresponde a uma nova atitude perante a cidade.
Como foi referido em capítulos anteriores, os objectivos destas intervenções correspondiam a uma modernização da cidade, tanto a nível funcional, como estético. Se, por um lado, era necessário dar resposta aos aspectos de ordem sanitária e de segurança da cidade, aspectos que se agravavam com o aumento da população nos centros urbanos, por outro, os contactos com as ideias renascentistas que Portugal manteve com o resto da Europa, no final do século XV, originaram uma nova forma de intervir na cidade. Esta modernização passava, em muitos casos, por regulamentar e legislar determinadas intervenções, em estruturar novos espaços urbanos, assim como criar novas extensões urbanas planeadas, como nos parece ter ocorrido no caso da cidade de S. Tomé.
Na planta de Gaspar Barleus, (Map of the city of San Thomé Barlaeus, Caspar 1645), podemos verificar uma nova extensão da cidade, marcada pela existência de uma malha urbana reticulada, composta de ruas paralelas e perpendiculares, onde, em muitos casos, as ruas formam ângulos quase rectos, dando origem a quarteirões de forma quase quadrada, sendo esta malha, segundo Raimundo da Cunha Matos , definida no início do século XVII.
Na opinião do mesmo autor, "A cidade foi antigamente muito extensa e a planta topográfica dela que se acha na obra de Barleus foi levantada poucos anos depois do incêndio de1600 e, por isso, é menos extensa do que no tempo presente. As ruas da cidade são mui direitas, quase tôdas tiradas a cordel e nenhuma é calçada."
A nível da estrutura do quarteirão e da definição dos lotes, pelo que podemos ver pela planta publicada por Barleus e pelo traçado actual, verificam-se alterações em relação ao esquema medieval: agora os lotes têm uma única frente virada para a rua, sendo que a outra dá para o interior do quarteirão. A forma dos quarteirões passa a ser mais parecida com o quadrado ao contrário da estrutura anterior que se assemelhava a um rectângulo.

Mapa da cidade de São Tomé, Gaspar Barlaeus, 1645 (AMH)

Mapa da cidade de São Tomé, Gaspar Barlaeus, 1647 (AMH)

Mapa da cidade de São Tomé, Gossselink, Martine: Land in Zicht, p. 97, cat.nr. 159 1665, (AMH).

Com o desenvolvimento das ruas para o interior, o núcleo urbano estende-se igualmente para o interior, através da implantação de igrejas ou pontos defensivos, criando, por um lado, uma rede viária "radio concêntrica"ou"irradiante", modelo que correspondia a um aumento de complexidade da rede urbana, caracterizando-se por uma série de arruamentos que convergem ou tendem a convergir num largo polarizador, embora admita a preponderância de uma dessas ruas, como principal. O conjunto forma uma espécie de “leque” em planta.

Planta da cidade S. Tomé localização das igrejas construídas fora do núcleo da cidade. Escala 1:25 000 1942 (BND)

Para além do desenvolvimento urbano formado por uma malha reticular, no núcleo central da cidade é frequente encontrar-se outros elementos (neste caso espaços livres, terreiros ou alargamentos de ruas) pontos de convergência de pessoas, actividades e até de estruturas viárias, geradores de determinados espaços urbanos, os largos.
Na cidade de São Tomé, em meados do século XVII, podemos reconhecer quatro zonas que identificamos como o embrião de futuros largos. Não sabendo ao certo em que altura eles foram definitivamente estruturados, o que é certo é que nesta altura podemos reconhecer um junto à Sé e à Misericórdia, outro junto ao cais e à alfândega, outro junto à Igreja da Conceição e outro junto à Igreja de São João.
O mais importante situa-se junto ao núcleo constituído pela Sé, pela Misericórdia e pela Torre.
Junto a estes edifícios, desenvolve-se um espaço amplo - um terreiro – designado, em 1644, pelo "Terreiro da Mizericórdia" (Quadro explicativo anexo à planta de 1644, A. H. U., nº 170) , para onde convergem algumas das ruas mais importantes da cidade. Neste caso, o largo assume um carácter religioso devido aos edifícios que lhe estão adjacentes, nomeadamente a Sé e a Misericórdia, mas revestir-se-á também de um cariz civil, visto encontrar-se nas proximidades da Torre, que, para além de residência do capitão (e posteriormente do governador), servia também de ponto de defesa importante da cidade.

Planta da baia de Anna de Chaves. Compreendendo a cidade, a Fortaleza de S. Sebastião e o Forte do Picão de nossa Senhora da Graça., (A.H.U. - Col. Cartografia Ms.- VII CM. Nº 170)

Podemo-nos aperceber ainda da existência de um outro espaço, este ligado às actividades marítimo-comerciais. Aqui, a definição do espaço corresponde mais a um alargamento de ruas do que propriamente a um terreiro, tal como se verificou no caso anterior. Do que nos é dado observar através da planta de Tavares Leote, datada de 1788, pode dizer-se que este espaço constituiu a origem da praça ligada ao porto e à alfândega (actual Praça da Independência), já inteiramente definida na referida planta.
Junto à Igreja da Conceição e à Igreja de S. João, pode-se facilmente reconhecer, através de duas plantas datadas do século XVII e XVIII, a existência de amplos espaços urbanos confinantes. Devido às funções que desempenham os edifícios que lhes estão adjacentes, estes espaços têm um carácter religioso. Não se sabendo, uma vez mais ao certo, a data em que os mesmos foram reestruturados, sabe-se, pelo menos, que já existiam nesse século.
Mapa da cidade de São Tomé, João Rozendo Tavares Leote Correia da Silva, 1788 (AHU nº175)

No que respeita ao edificado, podemos enumerar alguns edifícios construídos nesta altura: no que se prende com os edifícios religiosos, foi no início do século XVII que foi fundada a Igreja de S. Tiago (Ambrósio, A.- Subsídios para a História de S. Tomé e Príncipe, p. 174). Outros dos edifícios é referido por Manuel do Rosário Pinto: "foi em 1691 que os Agostinhos Descalços fundaram casa em São Tomé."(Ambrósio, A. Manuel do Rosário Pinto (a sua vida), p. 303). Também por esta altura surgia a construção de mais uma igreja, "A igreja de N. Sª do Rosário dos Homens Pretos: é de alvenaria, mediana grandeza, e foi construída no princípio do século XVII (...)."(Ambrósio, A. -Subsídios para a História de S. Tomé e Príncipe, p. 174). Segundo a mesma fonte, a capela de São Miguel Arcanjo foi construída provavelmente no século XVII e Miguel dos Anjos efectuou-lhe uma reforma em 1786. Quanto à igreja de Santo António, não se reconhece a data da sua construção.

A igreja de N. Sª do Rosário dos Homens Pretos

A igreja de Santo António

Relativamente à construção de edifícios de carácter defensivo, este período foi marcado por duas novas construções, o Forte de São Jerónimo, construído pelo ano de 1613 ou 1614. Segundo nos refere Lopes de Lima, “foi construído um forte - o Forte de São Jerónimo - cujo objectivo era a defesa da fortaleza e do porto ligado à cidade”. Esta edificação situa-se a sul da Fortaleza de São Sebastião, na estrada de Pantufo,junto à Praia Perigosa, nos terrenos onde se encontra actualmente o Hotel Pestana.

Forte de São Jerónimo-foto arquitecto Luís Benavente(Torre do Tombo)

O Forte de São José (de que se não encontram reminiscências), era, por seu lado, de dimensões reduzidas e, na segunda metade do século XVIII, já se encontrava em avançado estado de ruína. Localizava-se na ponta norte (Ponta de São José), no local onde se encontra o hospital Doutor Ayres Menezes e cruzava fogo com a de São Sebastião, em defesa da baía e com o forte do Picão, construído em terra batida no outeiro do mesmo nome, mais tarde conhecido por Arraial (Riboque), bem por detrás da igreja da Conceição. Por altura da ocupação holandesa de S.Tomé, em 1641, estava completamente inoperante , tal como era representado na já referida cartografia de 1644, (A. H. U., nº 170) .
Do que anteriormente foi referido, podemos perceber que a terceira fase de desenvolvimento urbano da cidade de S. Tomé é marcada por duas tendências: a primeira, fortemente de terminada pela existência de uma malha urbana reticulada que ocupa toda a actual baixa de São Tomé. Este tipo de ocupação está patente na planta de G. Barleus e na descrição da cidade datada de 1646.
Apreende-se nesta fase uma alteração no tipo de traçado dos quarteirões, assumindo uma forma quadrangular, com os lotes voltados para o seu interior, (ao contrário do tipo de ocupação anterior, em que a profundidade do lote correspondia à profundidade do quarteirão).

Vista dos quarteirões da cidade

A segunda tendência é essencialmente marcada pelo crescimento no sentido do interior (em relação à costa) através do desenvolvimento e crescente implantação ao longo dos caminhos que levavam nomeadamente às igrejas e fortalezas, originando o desenvolvimento da cidade no sentido desses edifícios.

Esquema representativo da terceira fase da evolução urbana cidade de São Tomé