sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A CASA GRANDE




A casa grande implantava-se num lugar marcante da roça e mais distante do resto das construções, mas sempre próxima do secador ao ar livre que era também o terreiro.
Implantavam-se algumas vezes na cota mais baixa da roça (Água Izé, Uba Budo Praia) e, noutras, na cota intermédia (Monte Café e Rio do Ouro, hoje Agostinho Neto), mas nunca na cota mais alta , como acontecia no Brasil, provavelmente para que o proprietário pudesse ter o domínio visual das actividades da roça. Num ultimo caso, as casas-grandes implantavam-se sobre uma plataforma, para destaque em relação a outras construções (Uba Budo sede).

Casa de administração da roça Bemfica

Normalmente têm a planta rectangular ou quadrada, mas no caso das roças estudadas, apresentam a forma em “L” ou em ”U” (o paradigma da roça Agostinho Neto, ver descrição da roça). A aparência externa dessas casas tem como elemento de destaque a varanda alpendrada, uma necessidade imposta pelo clima tropical, que corre por quase todas as fachadas. Esta varanda, que é suportada por pilares finos de madeira ou de metal, situa-se, na maioria das vezes, no piso superior e dá acesso aos cómodos da casa de diversos usos: sala, alcovas, cozinha, a casa de banho e sala do oratório, a sala das rezas. Quando a casa fosse apenas de um só piso, a varanda corria à sua volta e a cozinha e a casa de banho situavam-se fora do seu corpo ou na sua parte posterior.

Casa de administração da roça Amparo I

A cobertura com estrutura em madeira, de várias águas, muito inclinada e não raras vezes rematada por saqueado ornamental em madeira, era de chapa industrial (chapa de Zinco) ou em telha marselha, que cobre também a varanda, não obstante os casos em que as varandas têm telhados independentes da coberta do corpo da casa.
Outro aspecto a ter em devida conta nestas casas é a existência de um torreão, um piso independente na cobertura, onde se tem o total domínio visual da roça, principalmente a zona de trabalho.
Casa de administração da roça Vista Alegre

O sistema construtivo é de elementos portantes em alvenaria de tijolos ou de pedra, o piso superior é de madeira, apoiado em vigamento de madeira, enquanto os térreos são, em determinados casos, lajeados, embora predominasse em madeira. As roças tinham dois acessos, um de serviço e outro que era do uso privado do proprietário, que ficava no enfiamento da casa grande, num percurso marcado, em alguns casos, por palmeiras imperiais (roças Porto Alegre e Ribeira Peixe).

AS ROÇAS- DESCRIÇÃO FUNCIONAL E ARQUITECTÓNICA


Roça: “… rompimento de terras para culturas. Assim depois da derruba da maioria das árvores e da sega ou roça do mato, que muitas vezes se acumula em montículos, larga-se o fogo, que, reduzindo a maioria dos detritos em cinza, deixa o solo «preparado» para a fugaz lavoura ou para a sementeira, que antecedem as primeiras chuvas”.
…representaria na ilha de São Tomé, desde o século XVI até meados do século XIX um pequeno estabelecimento agrícola que, tendo resultado do acto de roçar, se destinava a culturas de subsistência.”

Roça Queluz

No inicio do século XIX, quando se notava já um desenvolvimento urbano para o interior das ilhas, com a criação de vilas como a das Neves, Trindade (única com estrada calçada na altura), Santo Amaro, Santana, Madalena, Ribeira Afonso e Angolares. “A vila tem, de facto em São Tomé feição própria : é, alem de local residencial, também de convívio e de reunião, de venda e compra de produtos das pequenas lavras nativas, de atracção religiosa em torno da igreja ou da capela, local de abastecimento de produtos importados, como farinhas, vinhos e panos vendidos em pequenas lojas, no todo semelhantes às aldeias portuguesas, e ainda sede de administração, onde, pelo menos, um regedor e as vezes um destacamento policial dirimem pleitos e impõem a autoridade”.
Eis que surgem as roças, que se implantam no coração da floresta virgem de São Tomé, e assumem o papel de novos agentes estruturadores do território, fazendo a ligação entre o interior/ litoral da ilha e a cidade.
Roças que fazem parte do grande património histórico-cultural e arquitectónico de São Tomé e Príncipe e que actualmente se encontram em completo abandono, o que me levou abordá-las e a expô-las no plano material (territorial/urbano, espacial/arquitectónico,infra-estrutural/constru tivo) funcional .

Roça Bindá

Mas convém antes referir as origens da estrutura das roças, que foram introduzidas nas ilhas a partir do Brasil, do mesmo modo que os mentores da plantação do café e cacau estavam estreitamente ligados a esse mesmo país.
Essa estrutura pode, por sua vez, ter como base ideológica o I Quatro Libri dell’Architet-tura de Andrea di Pietro della Gondola (Palladio), em que o mesmo tenta reavivar a essência das antigas vilas romanas na arquitectura da época, revivalismo que foi implementado em Vicenza e Veneza, no século XV, aquando da crise mercantil que obrigou a elite à exploração da terra-ferma.
A partir da quarta década do século XVI, essas terras haviam-se transformado em sumptuosas vilas, sendo que o processo se passou a designar por Vilegiatura, dando a visão da vila como uma pequena cidade, um mundo fechado, um lugar onde o proprietário era senhor de si, da sua família e dos seus dependentes e autónomo relativamente ao governo.

Roça Monte forte

Para saber de que forma foram construídas as mais antigas casas-grandes, assim chamadas nas roças as moradias dos patrões e/ou administradores, elas têm as suas origens arquitectónicas ligadas a uma arquitectura de teor erudito, com uso de arcadas, pilastras, capitéis, base, tudo regido por composições de arquitectura que seguem o determinado nos Tratados (como o de Palladio) ou nas anotações dos engenheiros militares ou mestres-de-obras. Embora igualmente simples, a arquitectura dessas casas-grandes é contudo mais leve, mais próxima da tradição portuguesa como acrescenta mais uma vez Tenreiro “com ela é possível relacionar os latifundiários romanos, cujos vestígios são ainda visíveis na paisagem sul de Portugal: as villae eram explorações em grande escala tendo por base um produto alimentar, mas também lucrativo (neste caso trigo), em campos abertos nos matagais de floresta clímax (azinheira, sobreio, etc).Não longe da casa do senhor estendiam-se as instalações para a criadagem servil. Campos de pão para subsistência e comercio, divisão em folhas, permitindo a criação de gado matos que constituíam reservas florestal e também alimentar e de solo; um centro agrícola, pátio ou terreiro, para onde convergiam os produtos e os homens e se concentravam os edifícios e as alfaias necessárias à lavoura .As extensas propriedades agrícolas do Alentejo - os montes ,como vulgarmente se chamam - são hoje como replica da villa romana, se bem que na sua génese possam estar factores diferentes. Seja como for, a maioria das grandes e médias herdades alentejanas apresentam uma fisionomia que, recordando hoje os latifundia, se assemelham em muito à roça de São Tomé” .

Roça Novo Brazil

Empregava a técnica das estruturas autónomas de madeira, com vãos preenchidos por taipa e um grande número de aberturas; eram comuns os alpendres, as escadarias externas e os porões utilizáveis.
Mas com as Influências da arquitectura europeia do século XIX, originadas pelo surgimento de uma arquitectura ligada ao Ecletismo, caracterizada por casas assimétricas no desenho de fachada, revestidas de uma maior liberdade formal, a qual se inspirava nos estudos sobre os chaléts europeus, ocorre um aumento de ornamentação externa e interna, principalmente na área social bem como um programa habitacional mais extenso, privilegiando o espaço social.
Ao contrário da casa rural, que até ao início do século XIX concentrava várias actividades num mesmo cómodo, a partir dos finais do século XIX ocorre uma violenta segmentação do espaço. Há salas e saletas destinadas às mais diversas actividades: ala de visitas, sala de chá, sala de jogos, sala de costura, sala de almoço, sala de jantar, os jardins passam também a fazer parte fundamental do espaço de convívio da família do roceiro. Jardins à francesa e botânicos com vários canteiros, gaiolas com pássaros e animais, lagos com repuxos de água e cercados por muros ou grades, delimitando o espaço privado do roceiro e sua família, reflexos de um processo de aburguesamento da classe rural.

Roça Queluz

A estrutura urbana das roças era composta por vários espaços, tais como: a Casa-grande (casa principal/administração), casa dos empregados brancos, a casa do feitor, senzalas, armazéns, estufas, secadores, o terreiro, cozinhas refeitorio e lavandaria para os serviçais. Nos casos das roças maiores encontra-se ainda o hospital, a maternidade, a capela de culto e mortuária, depósito de água e combustível, os escritórios, oficinas de serralharia, carpintaria e mecânica, o pombal, a torre sineira e, em termos infra-estruturais, os caminhos-de-ferro e os portos, no caso das roças situadas no litoral.